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Carta de Mário de Andrade

Trecho de uma carta de Mário de Andrade a Manuel Bandeira que veio a tona recentemente, por meio de uma determinação da Controladoria Geral da União à Casa de Rui Barbosa, em que ele comenta sobre sua homossexualidade (foi mantida a grafia e o estilo do autor):

Mário de AndradeMas em que podia ajuntar em grandeza ou milhoria para nós ambos, para você, ou para mim, comentarmos e eu elucidar você sobre minha tão falada (pelos outros) homossexualidade. Em nada. Valia de alguma coisa eu mostrar um muito de exagero que há nessas contínuas conversas sociais não adianta nada pra você que não é indivíduo de intrigas sociais.

Pra você me defender dos outros, não adiantava nada pra mim, porque em toda a vida tem duas vidas, a social e a particular, na particular isso me interessa a mim e na social você não conseguia evitar a socialização absolutamente desprezível de uma verdade inicial. Quanto a mim pessoalmente, num caso tão decisivo para a minha vida particular como isso é, creio que você está seguro que um indivíduo estudioso e observador como eu, ha-de estar bem inteirado do assunto, ha-de tê-lo bem catalogado e especificado. Ha-de ter tudo normalisado em si, si é que posso me serfir de “normalisar” neste caso. Tanto mais Manu, que o ridículo dos socializadores da minha vida particular é enorme. Note as incongruências em que caem: o caso de “Maria” não é típico. Me dão todos os vícios que por ignorância ou interesse de intriga são por eles considerados ridículos e no entanto assim que fiz de uma realidade penosa a “Maria”, não teve nenhum que caçoasse falando que aquilo era idealização para desencaminhar os que me acreditam nem sei o quê, mas todos falaram que era fulana de tal. Mas si agora toco neste assunto em que me porto com absoluta e elegante discrição social, tão absoluta que sou incapaz de convidar um companheiro daqui a sair sozinho comigo na rua (veja como tenho minha vida mais regulada que máquina de precisão) e se saio com alguém é porque esse alguém me convida. Si toco no assunto, é porque se poderia tirar dele um argumento para explicar minhas amizades platônicas, só minhas.

Ah, Manu, disso só eu mesmo posso falar. E me deixe que ao menos para você, com quem apesar das delicadezas da nossa amizade, sou de uma sinceridade absoluta, me deixe afirmar que não tenho nenhum sequestro não. Os sequestros num caso como este, onde o físico que é burro e nunca se esconde entra em linha de conta como argumento decisivo, os sequestros são impossíveis.

Eis aí os pensamentos jogados no papel sem conclusão nem consequência. Faça deles o que quiser.

Não  sei o que pensar da ordem que mandou a divulgação dessa carta. Por um lado, ela dá visibilidade à homossexualidade como um componente importante da personalidade de uma pessoa que marcou a vida cultural do país; por outro, me sinto um pouco incomodado em saber que essa divulgação não era um desejo do autor, ou seja, o direito à privacidade dele foi violado. Tá certo, alguém pode argumentar que frente ao tempo decorrido esse direito deve ceder ao direito igualmente real de se conhecerem as nuances da vida de uma pessoa que mexeu com a vida de muitos outros, mas também pode ser que para Mário de Andrade a colocação de um véu sobre essa questão fosse uma maneira de se evitar que as pessoas olhassem com demasia para algo completamente secundário na sua criação artística.

A Suprema Corte dos EUA decidiu hoje que a proibição ao casamento gay fere a constituição daquele país. Penso que a questão seja diferente aqui no Brasil e que a decisão do Supremo Tribunal Federal passou dos limites possíveis, mas, de qualquer forma, a reflexão feita pelo juiz Anthony Kennedy no final de seu voto tem um valor universal:

Nenhuma união é mais profunda do que o casamento, pois ele encarna os mais altos ideais de amor, fidelidade, dedicação, sacrifício, e família. Na formação de uma união conjugal, duas pessoas se tornam algo maior do que eram. Como alguns dos peticionários nestes casos demonstram, o casamento encarna um amor que pode resistir até a morte. Dizer que esses homens e mulheres desrespeitam a ideia do casamento seria não compreendê-los. O seu pleito é que eles respeitam sim, respeitam tão profundamente que eles buscam alcançá-lo. Sua esperança é não serem condenados a viver em solidão, excluídos de uma das instituições mais antigas da civilização. Eles pedem igual dignidade aos olhos da lei. A Constituição concede-lhes esse direito.

Syria´s Queer Refugees

Uma dos textos mais interessantes que li neste começo de ano, pois conta não só sobre a situação dos refugiados gays da guerra da Síria, como dá uma pincelada no que era a cena GLS nesse país antes da desastrosa revolta.

Tim Cook, presidente da Apple, assumiu publicamente sua homossexualidade num belo texto em que mostra que é possível ser fiel a si mesmo nesse aspecto sem virar uma caricatura; destaco o seguinte:

Part of social progress is understanding that a person is not defined only by one’s sexuality, race, or gender. I’m an engineer, an uncle, a nature lover, a fitness nut, a son of the South, a sports fanatic, and many other things.

A Igreja e os gays

Um ótimo texto de Reinaldo Azevedo onde ele põe os “pingos nos is” e demonstra um equilíbrio e maturidade que falta tanto a sindicalistas gays quanto a conservadores que vivem no “mundo das nuvens”:

A Igreja Católica e os gays: um documento correto e bem-vindo

“Os homossexuais têm dons e qualidades a oferecer à comunidade cristã? Seremos capazes de acolher essas pessoas, garantindo a elas um espaço maior em nossas comunidades? Muitas vezes, elas desejam encontrar uma igreja que ofereça um lar acolhedor. Serão nossas comunidades capazes de proporcionar isso, aceitando e valorizando sua orientação sexual, sem fazer concessões na doutrina católica sobre família e matrimônio?”

Essas indagações — que trazem em si a resposta — estão no documento que reflete os debates da primeira semana da assembleia extraordinária do Sínodo sobre a Família, que reúne 200 bispos no Vaticano e que tem como relator o cardeal húngaro Péter Erdo, de 62 anos, que frequentou a lista dos papáveis.

À diferença do que se diz por aí, não se trata ainda de um documento oficial do Vaticano, mas é evidente que se prenuncia uma mudança de tom muito bem-vinda da Igreja em relação aos homossexuais. É claro que eles têm dons e qualidades a oferecer à comunidade cristã. A Igreja pode continuar com suas posições doutrinárias sobre a organização da família — idealmente formada por heterossexuais casados — sem que, por isso, segregue os gays e, por exemplo, os heterossexuais que constituíram uma nova união.

Vocês conhecem muito bem a minha opinião a respeito. Ninguém é gay por escolha ou opção. Também não se trata de doença original ou de comportamento. Uma parcela de indivíduos de quase todas as espécies complexas conhecidas se sente atraída por outros  do mesmo sexo. E ponto. Não há nada a fazer a respeito. Igrejas são organizações sociais, compostas por seus membros, e fazem suas escolhas. Prefiro que o catolicismo inclua em vez de excluir; abrace em vez de rejeitar, sem que, para isso, precise abrir mão de sua doutrina.

Na esfera puramente civil, defendo o casamento gay e a adoção de crianças por pares homossexuais, desde que tenham condições psicológicas e financeiras para isso — mas faço a mesma exigência aos casais heterossexuais. Isso não me alinha com o que chamo “sindicalismo gay”, cuja pauta militante contempla kits nas escolas com proselitismo sobre orientação sexual, a aprovação da chamada lei anti-homofobia — essencialmente um equívoco — e patrulha meio fascistoide de combate à chamada “heteronormatividade”, uma bobajada que supõe, no fundo, que a prevalência da heterossexualidade no mundo é só uma questão cultural. Obviamente, não é.

Sei que é uma opinião sujeita a patrulhas as mais diversas. A linha de frente da militância gay acusa de “homofóbico” qualquer um que não adote a sua pauta. Para piorar, seres politicamente primitivos como uma Luciana Genro, por exemplo, pegam carona na luta dos gays e confundem o autoritarismo esquerdopata com a causa dos homossexuais. Alguém já viu esta senhora criticar a tirania cubana, onde gays são encarcerados só por serem gays? É claro que não! Se tiverem alguma curiosidade, procurem saber o que se deu com o bom escritor Reinado Arenas, narrada no filme “Antes do Anoitecer”, dirigido por Julian Schnabel. Gente como Luciana se alinha com a causa homossexual apenas porque considera que ela se opõe “à direita”. Querem outro exemplo? Sabem qual foi a principal acusação que o delinquente Nicolás Maduro, o ditador venezuelano, fez a seu opositor, Henrique Capriles? A de que ele é gay. As esquerdas ficaram caladas.

Da mesma sorte, noto que a questão gay leva alguns ultraconservadores a babar de ódio, como se o mundo vivesse sob uma terrível ameaça. Isso é bobagem. A ameaça que há hoje nos países livres é contra a liberdade de opinião e expressão, isto sim. Cada minoria organizada tende a transformar seus valores particulares em imposições universais, tentando calar quem pensa de modo diverso. Reitero: tal ameaça só existe no mundo livre. Nas tiranias, por óbvio, não. Afinal, tiranias são. De novo, lembro a tal Luciana. Segundo ela, Levy Fidelix deveria ter saído algemado de um debate eleitoral só porque se disse contrário ao casamento gay. Ela gosta é de ditadura, não de homossexuais.

Não acho que a comunidade cristã — e comunidade nenhuma — tenha algo a ganhar segregando os homossexuais porque homossexuais. E será dispensável lembrar aqui a contribuição de indivíduos nessa condição ao campo da ciência e das artes — inclusive cristãs. E sabem por que é dispensável? Porque não deixa de ser também uma forma de preconceito. Os gays têm o direito à felicidade ainda que não tenham nenhum talento especial, como não tem, aliás, a maioria dos heterossexuais. Os gays têm, em suma, o direito à normalidade.

Por enquanto, o que se tem é um documento prévio do Sínodo. Espero que se torne um documento abrigado por toda a Igreja Católica.

Sam Smith & the Gay Male Body Archetype

HyperReality

You may or may not have heard about Sam Smith yet. If you haven’t, you need to know two things:

1.) He has the voice of an ANGEL. But not just any angel, like a fucking first sphere seraph angel (which, according to this Wikipedia page, is like, the highest of angels; I don’t know how accurate that is because I know pretty much nothing about angel hierarchy.) Check out these videos to acquaint yourself with his majesty:

(His orgasmic and life-changing debut single “Stay With Me”)

(His impeccable collaboration with Disclosure, “Latch,” which is totally contender for my personal Song of the Year award) 

(His cover of Whitney Houston’s “How Will I Know,” which recently went viral and is guaranteed to make you fall in love with him/make your soul cry for a man like him to come into your life)

2.) He’s pretty much the elusive unicorn of gay males: he’s…

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