Carta a um jovem católico gay

de James Alison (frade dominicano)

Caríssimo,

Que privilégio ter a oportunidade de escrever a você! Tanto assim que eu gostaria de saborear a palavra “você” por um momento e pedir-lhe para considerar que novidade ela é, como é uma forma aberta de tratamento.

Quantas vezes dirigiram-se a você com a palavra “você” numa publicação católica? Não entendo a palavra “você” no sentido fraco, como quando as propagandas perguntam: “você pensou na vocação de ser sacerdote ou irmã?” Porque essas propagandas, na realidade, não se dirigem a “você”. Na verdade dirigem-se a “qualquer um que é semelhante a você em todos os aspectos, mas acontece que não é gay, ou pelo menos é hábil em escondê-lo”. Normalmente, sempre que há uma discussão sobre questões gay em publicações católicas, o estilo torna-se rapidamente duro e aparece um misterioso “eles”. Este “eles” parece habitar um outro planeta diferente daquele que você habita. Quem está falando sobre “eles” está, de fato, num outro planeta, num planeta onde uma estranha falta de oxigênio torna impossível usar os pronomes “eu”, “você”, “nós”. Se certas pessoas começam a usar esses pronomes, você logo sente que a única coisa que lhes dá a liberdade de fazê-lo é que elas são heterossexuais e têm suficiente honestidade para dizer que não entendem realmente do que se trata.

Talvez você tenha procurado falar informalmente sobre o fato de ser um católico gay a um sacerdote ou até a um bispo, que o seu gaydar [radar gay] sintonizou como sendo provavelmente “da família”, como “um dos nossos”, e você deve ter notado como, apesar de todo o desejo deles de serem amáveis, um misterioso controle toma conta de sua voz. Uma espécie de ordem restritiva interna significa que, quando eles dizem “você”, você pode sintonizar que o “eu” que está falando entrou num processo de mascaramento, tornou-se de certa forma oficial, e o “você” ao qual ele se dirige não recebe um sopro de vida mas é de certa forma assinalado como “a ser tratado com extrema precaução”. Existe um “mas” pairando sobre o pano de fundo da voz que fala, tão alto como tudo quanto eles dizem, porque o “mas” diz “você, mas não como você é”.

De modo que aqui está você, lendo uma publicação católica, parte daquela enorme e fantástica rede mundial de comunicação que é uma das alegrias de ser católico, e de certa forma permite-se que algo novo aconteça. Porque você, que por acaso é gay (seja lá o que for que isto signifique), está sendo abordado como “você” por um católico que pode dizer: “eu sou um católico que por acaso é gay, seja lá o que for que isto signifique”. Estão permitindo que fale com você um eu que tem consciência de ter os primórdios de uma história de vida na qual ser gay tem seu papel. E se me oferece a oportunidade de falar a você, não em caráter oficial, mas como irmão, um irmão com um pouco de história de vida que inclui ser um homem abertamente gay. É-me dada a oportunidade de dirigir-me a você partindo do mesmo nível em que você está, como alguém que não sabe melhor que você a respeito de quem você é, e mesmo não sabe muito a respeito de quem eu sou. No entanto aconteceu algo novo. Tornou-se possível, numa publicação católica da tendência dominante, que a palavra “você” seja pronunciada de forma aberta e sem restrições, de uma forma que espero ressoe criativamente no seu íntimo, por um “eu” em cujo timbre de voz são evidentes as inflexões daquela tensão amorosa que é a seqüela de viver como um homem abertamente gay no seio da Igreja católica.

Como acontece com todos os covardes, quando fui confrontado com o privilégio de tomar parte nesta comunicação, minha primeira reação foi fugir. Pois privilégio é responsabilidade. E existe algo particularmente terrível a respeito deste privilégio, porque só há Um que pode dirigir-se a você como “Você” de forma a chamar o “eu” de você à existência sem afastar, maltratar ou oprimir você. E esse é o próprio Nosso Senhor. E ele adquiriu esta capacidade passando pela morte, de modo a poder chamar você e eu à existência e dar a nós dois um “eu” não dominado pela morte e pelo medo da morte. Não há nada de barato em ser capaz de dirigir-se a um outro enquanto “você” de tal forma a chamá-lo à existência.

Quando os funcionários docentes de nossa Igreja se lembram – o que geralmente acontece quando estão na defensiva –, eles chamam a atenção para o fato de que aquilo que eles chamam de “magistério” nunca pode ser um substituto da consciência, mas só pode ser uma voz ao lado da voz de você, no mesmo nível que a voz de você, tão sujeita ao sopro de Nosso Senhor quanto a voz de você. Uma voz que instiga você, que o aconselha e o ajuda a formar sua consciência, e nunca uma voz que o abafa a fim de você assumir a voz do magistério em vez de enfrentar o árduo trabalho de permitir-se adquirir sua própria voz.

E nisto eles têm toda a razão. E eu não tenho nenhum direito de ser menos cuidadoso do que o magistério ao falar a você. Como você vê, a diferença entre minha tentativa de dirigir-me a você como “você” e a tentativa do sacerdote ou do bispo com o “controle”, o carrancudo “mas”, por trás de sua voz, não é que ele seja um hipócrita e eu não, que ele seja constrangido e eu não. De modo algum. Eu sou tão hipócrita quanto ele e sou tão constrangido quanto ele. Existe um “mas” por trás de minha voz também, embora não se aplique a você. Mas seria desonesto se eu pretendesse que amar a Igreja enquanto homem gay não tenha deixado alguma seqüela por trás de minha voz. As realidades que levam o sacerdote ou o bispo a falar a você de forma tensa e não-natural são as mesmas realidades que me forçam a pensar longa e seriamente sobre como devo falar a você. E fico apavorado ao pensar na pobre imagem que você teria de mim se você pudesse falar comigo pessoalmente em vez de encontrar-me através desta máscara que estou tecendo com palavras, palavras que posso corrigir e editar e mudar antes de elas chegarem até você.

Se existe uma diferença entre o tom de voz com que estou falando com você e o tom que você está acostumado a ouvir, é em grande parte uma diferença de casualidade ou de graça, dependendo de como você a interpreta. Sim, você tem que interpretá-la, você terá que decidir se eu, que estou me dirigindo a você como “você”, consigo fazê-lo apenas por causa de algum deslize, de alguma falha no sistema, ou se existe algo do Pastor nesta voz não-autorizada que está falando a você, algo do Pastor cuja voz você conhece e que não lhe causa medo. Não posso ter nenhuma pretensão de eu próprio ser um canal transmissor dessa voz. Ninguém de nós o pode. Podemos esperar ser usados, ou estar nos preparando para sermos usados. Mas somente aqueles a quem cada um de nós se dirige podem perceber quem é, que mistura de vozes é, que canta pela ondas que nossas cordas vocais lançam ao ar.

Se existe alguma diferença, permita-me confessá-lo, ela vem de um ato de obstinação, de desafio de minha parte. Uma recusa a crer em determinada coisa. Esse é o “mas” por trás de minha voz. “… Mas o Deus que nos é revelado em Jesus não poderia de maneira alguma tratar essa pequena porção da humanidade que é gay e lésbica com dois pesos e duas medidas, da maneira como a Igreja chegou a fazê-lo”. Ele não poderia de maneira alguma dizer: “Eu amo você, mas só se você se tornar outra coisa”; ou: “Ame seu próximo, mas, em seu caso, não como a você mesmo e sim como se você fosse um outro”; ou: “O amor de você é por demais perigoso e destrutivo, encontre algo diferente para fazer”. E, para um católico, um ato de obstinação ou desafio não parece um lugar extremamente bom para começar. Parece satânico. A não ser, evidentemente, que esta recusa a acreditar em determinada coisa seja avalizada por um sentimento tão forte da bondade de alguém que você sabe que o estaria ofendendo gravemente se o acreditasse capaz de agir da forma que lhe é imputada.

Você pode imaginar, como eu posso, uma esposa recusando-se a acreditar na culpa que um tribunal devidamente nomeado e um júri formado por seus iguais imputam ao marido relativamente a alguma desonestidade financeira. Todos os indícios parecem apontar na mesma direção, mas ainda assim a esposa recusa-se obstinada e desafiadoramente a acreditar que o marido possa ter cometido tal delito, mesmo que ele próprio às vezes titubeie em sua própria defesa, talvez para poupá-la da tensão de ter que apoiá-lo. Em alguns casos, a questão termina com novas provas, ou com uma reviravolta nas circunstâncias, inocentando inteiramente o marido de toda culpa, e ficará claro que a esposa estava certa ao recusar-se a permitir que a fé na bondade do marido fosse contaminada por calúnia pública. Em outros casos, não haverá desfecho feliz, e uma geração de espectadores irá considerar a esposa uma figura patética, desligada da realidade, tão arraigada na negação a ponto de ser incapaz de aceitar que o marido era um trapaceiro.

Ora, eu não quero iludir você! Eu sou essa esposa obstinada e desafiadora, e a história ainda não terminou. Nem eu sei, nem você sabe, se minha recusa a acreditar que Deus poderia talvez tratar as pessoas gays e lésbicas da forma como os anciãos da aldeia e o tribunal local dizem que ele trata é uma recusa nascida da fé num amor que acabará revelando-se verdadeiro, ou se é simplesmente um sinal de minha fuga ilusória para a irrealidade. Aqueles que falam com você com uma restrição em sua voz sabem perfeitamente que é uma coisa ou a outra, e estão levando a sério a segurança de você, não querendo embarcar você numa jornada tão cheia de riscos.

Não! Não quero iludir você. Pois convidar você a ocupar o lugar dessa mulher desafiadora, o lugar portanto da vulnerabilidade e da incerteza enquanto a história não chega a um fim, não é algo que eu faça com facilidade. É um lugar assustador. Pois não posso oferecer a você uma solução. Não sei se não é um ato de arrogância de minha parte que diz: “É melhor ousar enfrentar o medo de que ser gay possa ser simplesmente uma mentira, uma forma de auto-ilusão que não leva a lugar nenhum, confiando que o Espírito de Deus irá dissipar o medo, revelar que o medo é uma miragem, possibilitar-me crescer como uma criança à medida que enfrento e venço o medo; melhor isso do que apegar-se à opinião de que o medo é para nossa segurança, protegendo-nos de um abismo de absurdidade, e deixando-nos assim guiar pelo prudente ‘não’ de nossa tradição eclesial”.

Como você vê, já não desprezo mais o prudente “não”. Eu costumava. Costumava odiar a covardia, a hipocrisia e as mentiras. Mas agora que percebo o quanto custa sair disso, percebo também como devo ser cuidadoso ao dirigir-me a você. Pois quem de nós pode dizer se o que nos está movendo não é um desejo petulante de heroísmo, em vez do sopro do Senhor que diz “Duc in altum!” – “Vai para o mar alto!” (Lucas 5,4) Lá onde os prudentes pensam que não há peixe a ser pescado, onde não há humanos dignos de ser amados com sinceridade de coração, apenas um turbilhão de desejos confusos e insalváveis. O custo de sair do “não!” protetor, de crer que alguém possa estar se dirigindo a mim como “Tu” sem o temido “mas”, está me encontrando nu diante do Espírito e mais vulnerável do que nunca à minha própria auto-ilusão. E a única solução será quando a pesca começar a render, e isso poderá não acontecer no meu tempo de vida ou no de você.

Não! Não quero pretender que ser um católico abertamente gay é algo fácil ou óbvio. Não é. Para começar, o simples fato de você querer ler uma carta como esta é um sinal de quantos obstáculos você já deve ter superado. É bem possível que você já tenha enfrentado ódio e discriminação em seu país, por parte de membros da sua família, na escola, nas mãos de legisladores ávidos de votos fáceis, através de manchetes gritantes de jornais que lhe queimam a alma, e diante das quais você fica sem palavras para se defender. E você provavelmente notou que, no melhor dos casos, a Igreja que se diz – e é – sua Santa Mãe manteve-se calada a respeito do ódio e do medo. Enquanto muitíssimas vezes seus porta-vozes ter-se-ão rebaixado ao nível dos políticos de segunda classe, vociferando ódio enquanto afirmam apoiar o amor. O simples fato de você, através e em meio e apesar de todas estas vozes odiosas, ter ouvido a voz do Pastor chamando você a fazer parte de seu rebanho já é um milagre muito maior do que você imagina, que prepara você para uma obra mais sutil e mais delicada do que aquelas vozes poderiam conceber.

Você compartilhará todo o desprezo que o mundo moderno tem pela Igreja católica pelo fato de você apegar-se firmemente à fé que recebeu – pensarão que você terá pouca coisa de valor a oferecer. E, pelo fato de ser um católico, você estará sempre a ponto de ser considerado uma espécie de traidor de qualquer projeto que seus contemporâneos procuram construir. Nenhuma surpresa nisto: isso faz parte do jogo. Mas você enfrentará alguma coisa a mais, porque será considerado uma espécie de traidor também no seio da Igreja. “Não é bem um dos nossos”. E certamente não alguém que possa representar publicamente a Igreja, ser uma parte visível do sinal que leva à salvação. E como podia ser diferente? Porque, se ser gay é um defeito na criação, como se afirma, então o único sinal da graça ligado ao ser gay seria remover o ser gay daquilo que faz você ou eu sermos.

Não se admire, portanto, com o fato de serem considerados leais e confiáveis aqueles que procuram qualquer pretexto psicológico imaginável com vistas a encontrar suporte científico para a afirmação de que ser gay é uma patologia. Eles serão considerados um “sinal de contradição”, de não ceder ao espírito da época. Ao passo que você será considerado um mau católico, se é que for considerado católico. Pois, muito tempo depois que os grupos evangélicos que fundaram a “terapia reparativa” e o movimento “ex-gay” se forem e seus líderes pediram desculpas por desencaminhar as pessoas, essas idéias encontrarão partidários e defensores católicos, porque adulam a atual doutrina da Igreja. Mas não tenha medo dessas idéias e não odeie seus propagadores. Eles são nossos irmãos. O próprio fato de estes irmãos entenderem que, se a doutrina da Igreja é verdadeira, ela deve ter alguma base no domínio descobrível da natureza significa que, em última instância, ela é a prova de que aquilo que nos tornará livres é aquilo que é verdade nesse domínio. Isso será maior do que aquilo que você ou eu ou eles podemos imaginar imediatamente e nos libertará a todos.

Mas o que dizer do longo “ínterim”? Para você, chamado por seu nome, assim como para mim, que estou aprendendo a receber um “eu”, ser católico implica uma vocação para uma espécie de ministério, uma espécie de atuação criativa, uma espécie de imitação pública da vida e morte de Nosso Senhor. Por isso não quero disfarçar a realidade: você se encontrará exercendo um ministério, assim como eu me encontro exercendo um ministério, sem qualquer apoio público da autoridade eclesiástica. Será como se você não existisse. Você terá que aprender a viver no silêncio de não ser nem aprovado nem mesmo desaprovado. Você sumirá do olhar dos homens e, se você for um pouco como eu, louco por um olhar de aprovação, você experimentará isto como uma forma de morrer. Porque a cada um de nós é dado ser quem somos através do olhar dos outros, e é por meio deste olhar que descobrimos quem é que cada um de nós está em vias de chegar a ser, e nos comportamos de acordo. Assim, perder o chão embaixo dos pés e cair num espaço onde não há nenhum olhar, nenhuma aprovação, e nem mesmo desaprovação, é uma coisa terrível e perigosa.

Porque, evidentemente, eu posso ter perdido o chão embaixo dos pés e caído no espaço onde não há nenhum olhar por ter-me tornado hermético em meu próprio orgulho e auto-ilusão. Neste caso, nunca encontrarei um olhar, mas irei dançar ao ritmo dessa auto-decepção, imaginando-me santo e especial enquanto a morte não chega. Ou, se estou sendo levado pelo Espírito de Deus, o lugar onde não existe nenhum olhar pode transformar-se no espaço onde sou encontrado pela atenção de Deus. E isto será experimentado por mim como um “nada” ao meu redor, e só os outros podem perceber que existe um “eu” sendo chamado ao ser por Alguém cujos olhos não posso ver, mas Ele pode ver-me, um sopro que não posso sentir e no qual no entanto estou sendo sustentado. E, evidentemente, os outros não entenderão necessariamente mais do que eu o que eles vêem vindo ao ser.

Em que aventura é que você está ao ponto de embarcar? Permita-me fazer uma analogia: Não sei se você tem idade suficiente para lembrar-se da Guerra Fria. Ou, na verdade, se a Guerra Fria teve tanta importância na região do mundo em que você vive para ter causado grande impressão em você enquanto crescia. Um subproduto da Guerra Fria foi um gênero literário e cinematográfico de histórias de espionagem, contos de intrigas e vida clandestina protagonizadas (nos piores casos) pelos bons contra os maus e, em casos um tanto mais raros e melhores, por pessoas moralmente ambíguas de ambos os lados da fronteira que dividia os países da Otan e o bloco oriental.

Procure imaginar-se como um agente que trabalha para um dos dois lados – de meu ponto de vista o mais fácil é imaginar-me como um agente ocidental infiltrado nos países comunistas. Agora imagine que há muito tempo você recebeu as instruções do chefe da agência que deve “controlar” você e “treinadores” para prepará-lo para a missão a você confiada. Assim, confiando que estava sendo apoiado por eles, você mergulhou no seu trabalho, começando a construir comunidade, pequenos sinais do reino a que você serve, em pleno território inimigo. E agora imagine que algo estranho acontece: há uma espécie de golpe na agência que o enviou, uma mudança de política, e todas as pessoas que o haviam “treinado”, que o conheciam e o prepararam, são silenciosamente removidas. E assim você se encontra sem nenhuma linha direta de contato com ninguém da agência. Você se encontra totalmente na clandestinidade, e de repente está sem cobertura, sem apoio na retaguarda, sem recursos e mesmo sem reconhecimento. Tanto que os novos agentes enviados pela agência nem sequer sabem de sua existência, e provavelmente o desaprovariam completamente, já que, se você é quem você diz que é, então você faz parte de uma abordagem mais antiga e atualmente desacreditada do “território inimigo” no qual você está há longo tempo na clandestinidade.

E, evidentemente, existem na agência pessoas que podem saber de você, mas elas já não podem mais dizê-lo. Porque, se alguém ficar sabendo que elas têm contato com você, a própria permanência delas na agência correrá perigo. Em resumo, você descobre que se tornou uma não-pessoa. “Não consta em nossos arquivos, Senhora” – é a resposta dada a qualquer indagação feita no sede central por alguém suficientemente tolo para afirmar que conheceu você. Uma plausível negabilidade é o óleo lubrificante que faz a agência funcionar.

O que você irá fazer? Você ainda está trabalhando lealmente, gostando do projeto para o qual você foi originalmente enviado. Mas as comunicações tornaram-se muito irregulares. Você pode ouvir no rádio os pronunciamentos oficiais da agência. Você pode ler nas entrelinhas o significado “real” do que está sendo dito, mas você não existe, você não tem nenhuma linha de comunicação com a sede, você é um ninguém. Neste caso, você vai deixar que sua irritação e ressentimento com o tratamento recebido da agência o levem a desistir de trabalhar no projeto para o qual você foi originalmente chamado e treinado? Ou você ama o projeto a tal ponto que está preparado para amar a agência que agora o odeia, confiante que as coisas acabarão dando certo? Amar a agência quando ela o ama é bastante fácil, mas amá-la mesmo enquanto ela o renega? Aqui está o dedo de Deus!

É neste ponto que eu gostaria de insistir com você, assim como insisto comigo mesmo, muitas vezes com espírito desmilingüido, para que considere o privilégio daquilo que temos. Sim. Existe um blecaute de comunicação com uma sede central que só consegue falar a respeito de um “eles” e nunca dirigir-se a “você”; sim, ou eles não sabem de nossa existência, ou precisam de uma plausível negabilidade para seu próprio interesse; mas enquanto isso, aqui, em pleno território inimigo, podemos continuar construindo não apenas um pequeno cantinho de algo defensivo, mas a própria Igreja católica – a coisa toda, a Igreja toda inteira. E, curiosamente, com menos interferência de intrometidos do que se as linhas de comunicação estivessem funcionado direito. Portanto, vamos ousar ampliar nosso amor construindo sem aprovação, enquanto esperamos ansiosamente pelo dia em que algum Muro de Berlim ruirá e a comunicação será restaurada? Você é capaz de assumir a responsabilidade por isto? Consegue perseverar?

“¡Esto va para largo…!” [“Isto vai levar muito tempo!”] – era o sábio conselho que me dava um dos meus formadores, um dos meus treinadores, que além de ser gay é historiador. Ele me dizia, como eu estou dizendo a você, que o processo de ajustamento à verdade nesta esfera vai levar muito, muito tempo. E só acontecerá se pessoas como você e eu estiverem preparadas para amar o projeto e não se importar com a confusão na agência, se formos generosos em dar aos treinadores tempo para encherem-se de coragem para procurar-nos e falar a nós como cooperadores. Uma das coisas que nos manterão firmes na caminhada é que podemos continuar retornando àqueles estranhos lugares de encontro da Guerra Fria, as caixas para cartas usadas pelos espiões para se comunicarem, onde bem silenciosamente, de sob textos antigos e através de pão e vinho, nosso formador original e nosso primeiro treinador, Aquele que por primeiro deu vida ao projeto para nós, irá infundir-nos coragem e força e esperança, enquanto os atuais rapazes da agência promovem diversão, criando barulho sem sentido, mas afinal não conseguem calar o antigo código.

Será, meu amigo, que esta oportunidade de comunicação irá se repetir? Será que é apenas um ruído no ar, será que os bloqueadores das ondas de rádio católicas conseguirão impedir ainda mais um intercâmbio aberto entre um “eu” católico e um “você” católico, que por acaso são ambos gays? Ou será que não há algum degelo no permafrost eclesiástico e a conversa se tornará muito, muito mais fácil? Seja como for, permita-me dizer a você o que descobri em meus anos de clandestinidade em território inimigo: você não está sozinho, e as promessas d’Ele são verdadeiras.

Um grande abraço de seu irmão,

James

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