Saindo do gayto

Um artigo extraordinário de Lilah Bianchi:

Eu vou escrever sobre algo que eu não vivo, só vejo acontecer. E talvez você ache que não é válido falar sobre algo que não faço nem vivencio todo dia, mas eu digo que um olhar de fora, menos emocional, pode ser mais frio e acurado. Eu conheço pelo menos quarenta homens gays. São amigos do meu filho, meus amigos de adolescência, os meninos que encontrei na net e viraram meio filhos. Isso sem contar os emails que recebo depois da criação do blog. E é sobre esse universo que eu faço essas considerações.

O universo gay masculino vive uma espécie de dilema de Tostines. Se você é jovem e não lembra desse comercial ele fazia a seguinte pergunta: Tostines vende mais por que é fresquinho ou é fresquinho por que vende mais? Levando isso para a realidade desses meninos a pergunta é: o gueto empurra esses meninos para a promiscuidade ou a promiscuidade é que os empurra para o gueto? A maioria esmagadora dos gays masculinos que eu conheço já tentou, já teve ou quer ter uma relação estável. E a maioria deles ainda se vê, por N motivos, recorrendo ao gueto do sexo fácil, da relação descartável.

Vamos esclarecer antes de tudo que esse não é um texto moralista. Sexo é bom. Sexo sem compromisso, entre dois adultos dispostos e que sabem exatamente onde pisam é bom, válido e, sendo seguro, não machuca ninguém. No entanto não dá para negar que sexo sem compromisso, se repetido a exaustão pode acabar se tornando muito vazio. E é esse vazio que eu vejo muitas vezes nesses meninos. E por que eles insistem em repetir um modelo que, no fundo, só os machuca?

Eu acredito que o gueto os empurra para a repetição de padrões de conduta que são extremamente vazios. E que a sociedade como um todo, os modelos que ela reproduz como certos e normais, os empurram para o gueto. Aos dezesseis ou dezessete anos, quando descobrem a própria sexualidade, eles se veem frente a uma realidade muito cruel. Depois da negação pra si mesmo, do medo, vem a fria realidade do preconceito, da ausência de modelos de sexualidade sadia, do isolamento social e do afastamento familiar. Vem a escolha entre enfrentar uma sociedade que o marginaliza ou a vida inteira na solidão do armário.

A vida no armário implica em dividir sua existência em duas: aquela que você “vende” aos outros e aquela que você sente. Significa nunca estar inteiro em nenhuma delas. Não é possível estabelecer relações estáveis, envolver-se afetivamente, se o seu parceiro é um segredo sujo, escondido de todos. Só que o instinto sexual não vai dormir quieto no armário. Ele vai exigir ser satisfeito. E aí lhes resta o gueto. As relações em backroons, em banheirões e saunas. E estabelece-se uma rotina de sexo descartável, onde proteger o coração é meta número um depois da satisfação momentânea. E isso se torna uma segunda natureza. Nunca deixar o outro muito próximo. Nunca se colocar a mercê, nunca estar vulnerável. Por que o outro vive a mesma realidade e ele sabe disso. Ele projeta no outro as suas dúvidas, as suas atitudes. Ele espera do outro o sexo descompromissado que ele mesmo estabeleceu como padrão na sua vida.

Eu vejo esses meninos com uma enorme fome de relacionamentos significativos e ao mesmo tempo com um medo enorme de ser incapaz disso. Eu os vejo repetirem máximas que nem são “suas verdades”, mas que eles se convenceram de tanto ouvir. De que homens não podem ser fiéis ou que homossexuais não são capazes de manter relações estáveis ou mesmo que isso seria se curvar a um padrão heterossexual de relacionamento. E que talvez seja melhor mesmo manter as coisas na superfície. E enquanto repetem isso, eles se mostram carentes de carinho, afeto, cuidado. Quando ouço suas queixas eles não reclamam de falta de sexo, da pegação que não rolou, do gostoso que não pegaram….eles reclamam da solidão, da falta de colo, da necessidade de afeto. Eles reclamam da falta de pele, mas não da pele suada do sexo e sim da pele que é aconchego e cuidado.

E no entanto não é difícil vê-los se auto sabotando. Fugindo assustados do primeiro vislumbre de uma relação que possa passar do sexo sem compromisso. Por que os colocaria em cheque com essa sociedade, por que seria um passo definitivo fora do armário, por que não acreditam que o outro possa estabelecer algo estável (de tanto ouvir falar que é impossível ou por projetar seus próprios padrões antigos de relacionamento) ou mesmo por ausência de modelos saudáveis e não sabendo como “viver” aquela nova situação.

No fim eu não sei se tenho resposta ao dilema de Tostines. Eu acredito que, independente de orientação sexual, existem aqueles que florescem em relacionamentos estáveis e aqueles que se sentem melhor em relações provisórias. E não acho que um seja melhor que o outro. A liberdade de escolher é que deve ser respeitada. Se homossexuais fossem essencialmente promíscuos e volúveis por que o movimento pelo reconhecimento do direito ao casamento ganha mais força todo o tempo? Por que eles lutariam por algo que iria contra essa suposta natureza? Eu conheço pares estáveis e apaixonados. E não são diferentes de qualquer par heterossexual: brigam, discutem, vão dormir sem se falar, tem DRs eternas. Eu conheço quem viva bem e feliz sem assumir compromissos. Ambos tem o direito de fazer isso. O que não é mais possível é que o gueto seja a única saída e a única forma de vivenciar a sexualidade. Por que o preço que isso cobra mais tarde é muito alto.

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