O menino de Guarulhos

Fiquei com minha mãe e minha irmã esperando um voo que só aconteceria em algumas horas. Nada para fazer a não ser lanchar ou encontrar algo para ler – um tédio total. Ajudei minha irmã, que é deficiente, a sair do banheiro e a acompanhei, junto com minha mãe, até os bancos do saguão. Sentei próximo delas, mas uma fileira atrás, e, então, me deparei com aquele sorriso.

Lá estava ele, com cara de menino, bem branquinho, me olhando meio envergonhado. No começo, achei que era uma mera impressão, até porque quando ele notou que eu estava retribuindo, virou a cara para o lado oposto, e fingiu que nossos olhares não tinham se tocado. Mas sou insistente. Olhei de novo e de novo, até que ele percebeu e deu uma espiada e mais uma e mais uma. Aí fui eu que fiquei envergonhado e me voltei para frente.

Mas então pensei:

– Que mal tem eu dar mais uma olhada. Provavelmente nunca nos veremos de novo… hum, talvez possamos trocar o email.

Virei novamente em direção ao menino, e ele parece que percebeu aquele tipo de coisa que só gay percebe quando outro gay está interessado em você. Ele ficou inquieto, como se lutasse consigo mesmo. E passou a me fitar. Que sorriso lindo! Quis me sentar na outra cadeira para ficar do lado dele, mas tive medo que minha irmã percebesse algo. Então sorri de volta; virava para frente e voltava a virar para o lado trocando olhares com ele.

De repente o telefone dele tocou, ele atendeu e se levantou. Só nesse instante pude ver que ele tinha um defeito físico numa das pernas, era manco. Ele pegou a mochila e foi até o meio do saguão, lá encontrou uma menina, que não sei se era namorada ou irmã, mas teve de sair andando com ela, não sem antes dar mais uma olhada para mim e sorrir…

Carta de Mário de Andrade

Trecho de uma carta de Mário de Andrade a Manuel Bandeira que veio a tona recentemente, por meio de uma determinação da Controladoria Geral da União à Casa de Rui Barbosa, em que ele comenta sobre sua homossexualidade (foi mantida a grafia e o estilo do autor):

Mário de AndradeMas em que podia ajuntar em grandeza ou milhoria para nós ambos, para você, ou para mim, comentarmos e eu elucidar você sobre minha tão falada (pelos outros) homossexualidade. Em nada. Valia de alguma coisa eu mostrar um muito de exagero que há nessas contínuas conversas sociais não adianta nada pra você que não é indivíduo de intrigas sociais.

Pra você me defender dos outros, não adiantava nada pra mim, porque em toda a vida tem duas vidas, a social e a particular, na particular isso me interessa a mim e na social você não conseguia evitar a socialização absolutamente desprezível de uma verdade inicial. Quanto a mim pessoalmente, num caso tão decisivo para a minha vida particular como isso é, creio que você está seguro que um indivíduo estudioso e observador como eu, ha-de estar bem inteirado do assunto, ha-de tê-lo bem catalogado e especificado. Ha-de ter tudo normalisado em si, si é que posso me serfir de “normalisar” neste caso. Tanto mais Manu, que o ridículo dos socializadores da minha vida particular é enorme. Note as incongruências em que caem: o caso de “Maria” não é típico. Me dão todos os vícios que por ignorância ou interesse de intriga são por eles considerados ridículos e no entanto assim que fiz de uma realidade penosa a “Maria”, não teve nenhum que caçoasse falando que aquilo era idealização para desencaminhar os que me acreditam nem sei o quê, mas todos falaram que era fulana de tal. Mas si agora toco neste assunto em que me porto com absoluta e elegante discrição social, tão absoluta que sou incapaz de convidar um companheiro daqui a sair sozinho comigo na rua (veja como tenho minha vida mais regulada que máquina de precisão) e se saio com alguém é porque esse alguém me convida. Si toco no assunto, é porque se poderia tirar dele um argumento para explicar minhas amizades platônicas, só minhas.

Ah, Manu, disso só eu mesmo posso falar. E me deixe que ao menos para você, com quem apesar das delicadezas da nossa amizade, sou de uma sinceridade absoluta, me deixe afirmar que não tenho nenhum sequestro não. Os sequestros num caso como este, onde o físico que é burro e nunca se esconde entra em linha de conta como argumento decisivo, os sequestros são impossíveis.

Eis aí os pensamentos jogados no papel sem conclusão nem consequência. Faça deles o que quiser.

Não  sei o que pensar da ordem que mandou a divulgação dessa carta. Por um lado, ela dá visibilidade à homossexualidade como um componente importante da personalidade de uma pessoa que marcou a vida cultural do país; por outro, me sinto um pouco incomodado em saber que essa divulgação não era um desejo do autor, ou seja, o direito à privacidade dele foi violado. Tá certo, alguém pode argumentar que frente ao tempo decorrido esse direito deve ceder ao direito igualmente real de se conhecerem as nuances da vida de uma pessoa que mexeu com a vida de muitos outros, mas também pode ser que para Mário de Andrade a colocação de um véu sobre essa questão fosse uma maneira de se evitar que as pessoas olhassem com demasia para algo completamente secundário na sua criação artística.

A Suprema Corte dos EUA decidiu hoje que a proibição ao casamento gay fere a constituição daquele país. Penso que a questão seja diferente aqui no Brasil e que a decisão do Supremo Tribunal Federal passou dos limites possíveis, mas, de qualquer forma, a reflexão feita pelo juiz Anthony Kennedy no final de seu voto tem um valor universal:

Nenhuma união é mais profunda do que o casamento, pois ele encarna os mais altos ideais de amor, fidelidade, dedicação, sacrifício, e família. Na formação de uma união conjugal, duas pessoas se tornam algo maior do que eram. Como alguns dos peticionários nestes casos demonstram, o casamento encarna um amor que pode resistir até a morte. Dizer que esses homens e mulheres desrespeitam a ideia do casamento seria não compreendê-los. O seu pleito é que eles respeitam sim, respeitam tão profundamente que eles buscam alcançá-lo. Sua esperança é não serem condenados a viver em solidão, excluídos de uma das instituições mais antigas da civilização. Eles pedem igual dignidade aos olhos da lei. A Constituição concede-lhes esse direito.